ESCRITO DE CUSCO, A 3.400M, DEPOIS DE APAGAR MEU PRIMEIRO DIA INTEIRO.
Vou começar pela real: eu cheguei em Cusco depois de uma viagem puxada (Atacama, uma conexão em Santiago e um voo de madrugada), e apaguei o primeiro dia inteiro de cansaço. Dormi, hidratei, fiquei quieto. No dia seguinte acordei pronto pra viver a cidade. Então não é frescura, isso aqui a 3.400m mexe com o corpo de todo mundo, e é bom você chegar sabendo pra não desperdiçar o começo da viagem.
O que é o soroche (e por que Cusco pega)
Soroche é o nome que dão por aqui pro mal de altitude (a medicina chama de doença aguda das montanhas, o tal do AMS). Segundo o CDC (o centro de saúde dos Estados Unidos, que é uma fonte séria pra isso), o risco começa pra quem dorme acima de 2.450m. Cusco fica bem acima disso, a uns 3.400m, então cai em cheio na zona de risco.
E não pensa que é só com quem é fora de forma: o CDC estima que o mal de altitude atinge cerca de 25% dos visitantes que sobem pra essas alturas. Gente jovem, gente atleta, todo mundo pode sentir. Não tem a ver com preparo físico, tem a ver com o corpo se acostumar a viver com menos oxigênio no ar.
Os sintomas (e quando eles aparecem)
De acordo com o CDC, o sinal principal é dor de cabeça, quase sempre junto com pelo menos um destes:
- Dor de cabeça (esse é o sintoma cardinal, quase sempre presente).
- Falta de apetite, aquela vontade zero de comer.
- Tontura e sensação de cabeça leve.
- Fadiga, cansaço fora do normal (foi o que me derrubou no primeiro dia).
- Náusea ou vômito.
O timing importa pra você não se assustar à toa: normalmente os sintomas aparecem de 2 a 12 horas depois de chegar na altitude, e passam em 12 a 48 horas se você não subir mais ainda. Ou seja, dá aquele mal-estar no primeiro dia e tende a melhorar sozinho quando o corpo se acostuma. Se em vez de melhorar for piorando, aí muda de figura, e eu falo disso lá embaixo.
Como prevenir (o que dá pra fazer)
A boa notícia é que dá pra reduzir muito a chance de passar mal. Essas são as recomendações do CDC, e foi mais ou menos o que eu fiz na prática:
- Sobe devagar. Se der pra escalonar a viagem, ganhe altitude aos poucos.
- Só exercício leve nas primeiras 48h. Nada de trilha pesada ou passeio radical logo que chega. Deixa o corpo entrar no ritmo.
- Hidrata muito. Água pra caramba, o tempo todo.
- Não ganha altitude de dormida rápido demais. Acima de 3.000m, o ideal é não subir mais que uns 500m de altitude de uma noite pra outra.
- Aclimatar antes ajuda MUITO. Passar 2 a 3 noites numa altitude intermediária (uns 2.450 a 2.750m) antes de encarar Cusco dá um tempo pro corpo se ajustar. Nem sempre dá pra fazer no roteiro, mas se der, faz.
Remédio e o chá de coca
Existe um remédio conhecido pra isso, a acetazolamida. Pelo que consta na literatura médica, o esquema é 125mg de 12 em 12 horas pra prevenção (começando na véspera de subir) ou 250mg duas vezes ao dia pra tratar. MAS, e esse mas é grande:
E o famoso chá de coca? Todo mundo toma em Cusco, oferecem no hotel, na rua, em tudo quanto é canto. É um costume local lindo e vale provar pela experiência. Só um detalhe honesto: o CDC não valida o chá de coca como cura ou prevenção comprovada do mal de altitude. Então toma pelo costume e pela vivência, mas não conta com ele como se fosse remédio de verdade.
O alerta vermelho (a parte séria)
Até aqui foi o mal de altitude comum, aquele chato que passa. Agora o que você PRECISA saber pra reconhecer, porque muda tudo. Existem dois quadros graves e raros que não são pra esperar passar:
HACE (edema cerebral): confusão mental, falta de coordenação (a pessoa cambaleia como se estivesse bêbada), sonolência exagerada.
HAPE (edema pulmonar): falta de ar mesmo parado, em repouso, e catarro com sangue.
Se qualquer um desses sinais aparecer, não espera. A conduta é descer de altitude imediatamente e procurar atendimento médico. Isso é raro, mas é o tipo de coisa que salva vida saber reconhecer.
Resumindo o meu esquema: cheguei, apaguei o primeiro dia sem culpa nenhuma, hidratei feito louco e só fui viver Cusco de verdade depois. Não tem que ter medo, tem que ter respeito. Aclimata direito e a cidade te devolve tudo. (Fontes de saúde: CDC Yellow Book e CDC Peru.)